Treino de ritmos

Reconhecer um ritmo em segundos, sem adivinhar

Quando o monitor alarma a sério, não há tempo para pensar de raiz. Há tempo para seguir um método que já se sabe de cor. É esse método que se treina aqui — e a seguir treina-se com traçados a mexer, até a resposta sair sozinha.

Sem limite de sessões. Não é preciso cartão.

As quatro perguntas, sempre pela mesma ordem

Não se decoram dezanove traçados. Faz-se a mesma sequência de perguntas a todos, e é a sequência que se torna automática. Quem falha um ritmo quase nunca falha por não o conhecer — falha por ter saltado uma pergunta.

  1. FrequênciaRápido, lento ou normal? Antes de mais nada, conta.
  2. RegularidadeOs intervalos são iguais? Irregular já elimina metade das hipóteses.
  3. Onda PHá P antes de cada QRS? É a pergunta que separa o sinusal de tudo o resto.
  4. QRSEstreito ou largo? Largo é urgente até prova em contrário.

Os 19 ritmos, um a um

Para cada ritmo: as quatro respostas, o sinal que resolve o diagnóstico, o que fazer, e com que outros ritmos se confunde. Os pares que se confundem são os que interessa treinar — ninguém troca uma assistolia por uma taquicardia.

Ritmos sinusais

Sinusal Normal

Frequência
60–100
Regularidade
regular
Onda P
presente antes de cada QRS
QRS
estreito

O que resolve o diagnóstico: P antes de cada QRS, FC 60–100, tudo regular

O que fazer: nada — é o ritmo normal

Confunde-se com: Bradicardia Sinusal, Taquicardia Sinusal

Bradicardia Sinusal

Frequência
< 60
Regularidade
regular
Onda P
presente antes de cada QRS
QRS
estreito

O que resolve o diagnóstico: igual ao sinusal, mas abaixo de 60

O que fazer: tratar só se houver má perfusão: atropina

Confunde-se com: Sinusal Normal, BAV 3.º grau

Taquicardia Sinusal

Frequência
100–150
Regularidade
regular
Onda P
presente, pode encostar à T
QRS
estreito

O que resolve o diagnóstico: P ainda visível e FC raramente acima de 150 — procurar a CAUSA

O que fazer: tratar a causa (dor, febre, hipovolémia), não a frequência

Confunde-se com: Sinusal Normal, TSV, Flutter Auricular

Taquicardias de QRS estreito

TSV

Frequência
150–250
Regularidade
muito regular
Onda P
não se vê (escondida na T)
QRS
estreito

O que resolve o diagnóstico: demasiado rápida e demasiado regular para ser sinusal, e sem P

O que fazer: manobras vagais, adenosina; cardioversão se instável

Confunde-se com: Taquicardia Sinusal, Flutter Auricular, Fibrilhação Auricular

Fibrilhação Auricular

Frequência
variável
Regularidade
IRREGULARMENTE irregular
Onda P
ausente (ondulação fina)
QRS
estreito

O que resolve o diagnóstico: nunca há dois intervalos iguais e não há P nenhuma

O que fazer: controlo de frequência, anticoagulação

Confunde-se com: Flutter Auricular, TSV

Flutter Auricular

Frequência
~150 (2:1)
Regularidade
regular
Onda P
ondas F em dente de serra (~300/min)
QRS
estreito

O que resolve o diagnóstico: dente de serra na linha de base — regular, ao contrário da FA

O que fazer: controlo de frequência, cardioversão

Confunde-se com: Fibrilhação Auricular, TSV, Taquicardia Sinusal

Taquicardias de QRS largo

TV Monomórfica (c/ pulso)

Frequência
150–200
Regularidade
regular
Onda P
ausente
QRS
LARGO e uniforme

O que resolve o diagnóstico: complexos largos, todos IGUAIS entre si, e há pulso

O que fazer: cardioversão sincronizada; amiodarona

Confunde-se com: TV Monomórfica (s/ pulso), TSV

TV Monomórfica (s/ pulso)

Frequência
150–200
Regularidade
regular
Onda P
ausente
QRS
LARGO e uniforme

O que resolve o diagnóstico: igual à anterior no traçado — o que muda é NÃO haver pulso

O que fazer: paragem: desfibrilhar + SAV

Confunde-se com: TV Monomórfica (c/ pulso), FV (grosseira)

TV Polimórfica

Frequência
200–250
Regularidade
irregular
Onda P
ausente
QRS
largo, MUDA de complexo para complexo

O que resolve o diagnóstico: sem linha isoelétrica e cada complexo diferente do anterior, SEM fuso organizado

O que fazer: desfibrilhar (não sincronizado); corrigir isquemia

Confunde-se com: Torsades de Pointes, FV (grosseira), TV Monomórfica (s/ pulso)

Torsades de Pointes

Frequência
200–250
Regularidade
irregular
Onda P
ausente
QRS
largo, roda em torno da linha de base

O que resolve o diagnóstico: FUSOS: a amplitude cresce, diminui e a polaridade inverte-se — é a torção

O que fazer: sulfato de magnésio; corrigir o QT longo

Confunde-se com: TV Polimórfica, FV (grosseira)

Ritmos de paragem

FV (grosseira)

Frequência
Regularidade
caótica
Onda P
ausente
QRS
nenhum complexo identificável

O que resolve o diagnóstico: caos total, sem qualquer complexo reconhecível

O que fazer: DESFIBRILHAR já

Confunde-se com: TV Polimórfica, FV fina

FV fina

Frequência
Regularidade
caótica
Onda P
ausente
QRS
nenhum, de amplitude muito baixa

O que resolve o diagnóstico: parece assistolia até se aumentar o ganho — por isso é que se aumenta

O que fazer: desfibrilhar; RCP de qualidade

Confunde-se com: Assistolia, FV (grosseira)

Assistolia

Frequência
0
Regularidade
Onda P
ausente
QRS
ausente

O que resolve o diagnóstico: linha praticamente plana — confirmar em duas derivações e com ganho

O que fazer: RCP + adrenalina; NÃO se desfibrilha

Confunde-se com: FV fina

AESP

Frequência
lenta
Regularidade
regular
Onda P
ausente
QRS
largo

O que resolve o diagnóstico: há ritmo no monitor mas NÃO há pulso — o diagnóstico é no doente

O que fazer: RCP + adrenalina; procurar as causas reversíveis

Confunde-se com: Bradicardia Sinusal, BAV 3.º grau

Bloqueios auriculoventriculares

BAV 1.º grau

Frequência
normal
Regularidade
regular
Onda P
presente, PR > 200 ms
QRS
estreito

O que resolve o diagnóstico: todas as P conduzem, mas o PR está sempre longo e sempre igual

O que fazer: nenhuma; vigiar

Confunde-se com: Sinusal Normal, BAV 2.º Mobitz I

BAV 2.º Mobitz I

Frequência
normal ou lenta
Regularidade
irregular por ciclos
Onda P
PR aumenta até falhar um QRS
QRS
estreito

O que resolve o diagnóstico: o PR vai ALONGANDO até um batimento cair — e depois recomeça

O que fazer: vigiar; atropina se sintomático

Confunde-se com: BAV 2.º Mobitz II, BAV 1.º grau

BAV 2.º Mobitz II

Frequência
lenta
Regularidade
irregular
Onda P
PR CONSTANTE, com QRS que falham
QRS
estreito ou largo

O que resolve o diagnóstico: o PR não muda nada — os batimentos caem de repente, sem aviso

O que fazer: pacemaker — pode evoluir para BAV completo

Confunde-se com: BAV 2.º Mobitz I, BAV 3.º grau

BAV 3.º grau

Frequência
30–40
Regularidade
regular, mas dissociada
Onda P
presentes, sem relação com o QRS
QRS
largo (escape)

O que resolve o diagnóstico: P e QRS cada um no seu ritmo, sem nenhuma relação entre eles

O que fazer: pacemaker; atropina raramente resulta

Confunde-se com: BAV 2.º Mobitz II, Bradicardia Sinusal

Outros

Pacemaker

Frequência
~70
Regularidade
regular
Onda P
espícula antes do complexo
QRS
largo

O que resolve o diagnóstico: espícula vertical e fina imediatamente antes de cada complexo

O que fazer: nenhuma se estiver a captar corretamente

Confunde-se com: BAV 3.º grau, TV Monomórfica (s/ pulso)

Saber de cor não é o mesmo que reconhecer sob pressão

Esta página dá-lhe a matéria. O que fixa é a repetição com traçados a mexer, feedback imediato quando erra, e o registo do que continua a falhar para voltar lá. É isso que está do outro lado do registo, e não custa nada.

Começar a treinar — é grátis