Conhecer o traçado ECG
Antes de conseguires interpretar um ritmo cardíaco, tens de reconhecer os elementos que formam um traçado ECG.
À primeira vista, o traçado parece apenas uma sucessão de linhas e picos. No entanto, cada pequena alteração corresponde a um acontecimento elétrico específico no coração.
Quando olhas para um ECG, deves conseguir responder rapidamente a perguntas como:
- Onde começa a onda P?
- Onde termina o complexo QRS?
- Onde está a onda T?
- Existe uma onda U?
- Onde começam e terminam os principais intervalos e segmentos?
Esta capacidade é a base de toda a interpretação eletrocardiográfica. Antes de aprenderes a identificar ritmos, precisas de reconhecer aquilo que estás realmente a observar.
A primeira estrutura que normalmente procuramos é a onda P.
Representa a despolarização das aurículas, ou seja, a ativação elétrica que antecede a sua contração.
Num ritmo sinusal normal, cada onda P deve surgir antes do respetivo complexo QRS.
Nem sempre é fácil identificá-la. Em ritmos rápidos pode ficar parcialmente escondida, enquanto nalgumas arritmias pode estar ausente ou apresentar uma morfologia diferente.
Aprender a reconhecer uma onda P normal será uma das competências mais importantes nas próximas lições.
O elemento mais evidente da maioria dos traçados é o complexo QRS.
Representa a despolarização dos ventrículos, responsável pela sua contração.
Apesar de frequentemente lhe chamarmos "QRS", nem todos os complexos apresentam as três ondas.
Dependendo da derivação utilizada e da direção da despolarização, um complexo pode ser constituído por:
- apenas uma onda R
- uma sequência QR
- uma sequência RS
- um complexo QRS completo
- outras combinações possíveis
O importante é perceber que o nome "complexo QRS" descreve um conjunto de ondas ventriculares, não a obrigação de todas estarem presentes em cada batimento.
Depois do complexo QRS surge habitualmente a onda T.
Esta representa a repolarização ventricular, ou seja, o processo através do qual as células do miocárdio recuperam eletricamente após a despolarização.
Em alguns traçados pode ainda surgir uma pequena deflexão após a onda T: a onda U.
A onda U nem sempre está presente e, quando existe, costuma ter uma amplitude reduzida. Em muitas pessoas saudáveis é praticamente impercetível.
Em determinadas situações clínicas pode tornar-se mais evidente, pelo que é importante saber distingui-la da onda T e evitar confundi-la com uma nova onda P.
Além das ondas, vais encontrar dois conceitos que são frequentemente confundidos: segmentos e intervalos.
Um segmento corresponde à porção do traçado compreendida entre duas ondas.
Um intervalo inclui pelo menos uma onda e o segmento que a acompanha.
Esta diferença parece pequena, mas é fundamental quando começares a estudar alterações do intervalo PR, do segmento ST ou do intervalo QT.
Quanto mais rapidamente conseguires identificar cada componente do traçado, mais fácil será interpretar qualquer ritmo cardíaco.
Nota Final:
Os ritmos cardíacos mudam. As estruturas fundamentais do ECG não. Quanto mais rapidamente identificares cada onda, complexo, segmento e intervalo, mais simples será interpretar qualquer traçado nas lições seguintes.